O que uma viagem sem expectativa pode causar
CRÔNICAS
Frederico Braga
4/11/20263 min read
Qualquer viajante que se preze sempre sonhou visitar as cidades mais famosas do mundo. Nova York, Londres, Roma, Paris, Tóquio. A lista não se esgota, mas os exemplos já bastam.
Poucos, contudo, responderiam Edimburgo, capital da Escócia, como a viagem da vida ou dos sonhos. Na verdade, a maioria dos viajantes com destino ao Reino Unido pela primeira vez elege Londres como o lugar a receber o “tic” na lista. Nem dá para julgar.
Talvez por conta disso, visitar Edimburgo sem qualquer expectativa acaba provocando um encantamento difícil de ser esquecido. Dá um certo medo voltar e se decepcionar. Na segunda visita, você já estará preparado para ver ou rever algo.
Em 2018, morava na Irlanda e decidi passar a virada do ano em Londres. O show de fogos até então visto na BBC se tornaria realidade. De férias da escola, dispunha de onze dias no total. Mas tanto para quem já foi quanto para quem um dia irá, onze dias na terra do Big Ben pode se tornar uma catástrofe financeira, caso não seja bem planejado. Por conta disso, comprei passagens para Edimburgo e de lá, fui de ônibus noturno para Londres. Assim já economizei uma hospedagem.
O fim de dezembro na Europa é bastante frio. Cheguei em Edimburgo bem no início da manhã, depois de passar a noite no aeroporto. Logo após deixar o portão de desembarque, senti o ar gelado e cortante me acompanhando até o ônibus que me levou ao centro da cidade.
Durante os cerca de quarenta minutos de trajeto, aproveitei a temperatura interna mais agradável para admirar uma paisagem diferente do que estamos habituados. Sabe aquelas vacas com franjinha para o lado? Pois é!
Mas a surpresa começou de verdade quando desembarquei. Embora fosse impossível ignorar o frio, tive de reprimir a pressa em encontrar um lugar para me aquecer. Uma fina lâmina de gelo cobria ruas e calçadas e me obrigava a caminhar lentamente. Ainda envolta em um amanhecer tardio, a cidade surgia à minha frente a cada passo e a cada esquina, parecendo ter saído de um livro de fantasia.
Na Royal Mile, as construções históricas enegrecidas pela ação do tempo, o limo em algumas de suas paredes úmidas e os tons acinzentados do céu contrastavam com o colorido do tartan dos kilts e dos pubs. A cidade é história pura. É lá, inclusive, que o primeiro mamífero a ser clonado no mundo, a ovelha Dolly, se encontra. Empalhada e protegida por um vidro blindado, é a figura central do National Museum of Scotland, museu bastante interessante e interativo, ideal especialmente para quem tem crianças.
Há, também, um passeio pelo cemitério, no qual vemos as lápides que inspiraram os nomes de alguns personagens de J.K. Rowling. Tom Riddle, por exemplo, está lá. E antes que você pense, Edimburgo não se resume a apenas história, construções antigas e sotaque difícil de compreender. A capital escocesa também conta com ótimos restaurantes e iguarias bem distintas. E não estou falando apenas do fish & chips.
Durante minha passagem, experimentei um hamburguer de carne de búfalo, suculento e saboroso, lembrado até hoje. E, é claro, o famoso haggis. Haggis é um prato típico escocês, um misto de vísceras cozido com aveia e especiarias diversas em estômago de ovelha. Uma delícia!
Da já mencionada Royal Mile ao Calton Hill, sem esquecer do famoso castelo erguido sobre uma enorme rocha vulcânica, caminhar por Edimburgo é como ser transportado para outra época. Ao mesmo tempo em que é real, a impressão é de, ao virarmos uma esquina, nos depararmos com cavalos e carruagens (Eles existem e estão lá, transportando turistas) pertencentes a um passado no qual nunca vivemos, mas conhecemos e lembramos por ouvir e ler a respeito. Por tudo isso, a cidade se torna familiar e é impossível não ter a sensação de deja vu.
Já viajar nessa época, apesar das condições climáticas, reativa nossa empatia e pré-disposição em apreciar coisas simples, como artistas de rua se apresentando em diversos pontos da cidade. Um deles, James, The Magician, como ele mesmo se intitulava em alto e bom som, possivelmente jamais verei novamente. Porém, foi responsável por quinze dos minutos mais incríveis lá vividos, juntamente com centenas de estranhos, em uma tarde com temperatura máxima de cinco graus.
De um destino do qual nada se esperava, incluído na lista apenas por conveniência, a capital da Escócia impressiona seus visitantes com uma mistura de cultura e história impossível de ser absorvida em apenas uma viagem. E mesmo sem uma fonte monumental para jogar uma moedinha como é tradição em outras capitais europeias, ainda assim, quem vai a Edimburgo espera, um dia, voltar.
