Água para quem tem sede

CONTOS

Frederico Braga

4/22/2026

O sol seguia a pino. Passava das quatro horas da tarde e a caminhada das duas amigas continuava por uma trilha pedregosa. A uma distância de uns vinte passos uma da outra, seguiam rumo acima. Apesar da sombra providenciada pelas árvores, o calor ardia na pele.

- Raquel, acho melhor voltarmos. Está muito quente e minha garrafa está vazia - sugeriu Valéria.

- A minha também. Vamos seguir só mais um pouco – respondeu Raquel. – Ouvi falar que aqui próximo há um poço. E a água é fresca e limpa. Aí nós bebemos, descansamos e voltamos.

Raquel ia um pouco mais a frente, disposta e motivada apesar da temperatura, enquanto Valéria a seguia, em ritmo mais lento e contínuo. “Será que fica muito longe? Meus pés estão começando a doer. Ela disse que seria uma caminhada leve. Mas Raquel sempre foi assim. E ainda preciso voltar antes que anoiteça. Hoje é o dia da prova dos docinhos. Jonas vai me buscar perto das seis”, pensava Valéria.

- Venha, Valéria. Você nem parece animada para quem vai se casar em menos de um mês. Jonas está radiante.

- Estou, sim. É que hoje está bastante quente. Não imaginei que viéssemos tão longe. Você disse que era uma caminhada tranquila.

- E é. Também estou com calor. Deve ser por isso que está se sentindo mais cansada. E o poço fica logo depois daquelas árvores, virando à direita. Vamos lá!

Apesar de cansada, Valéria continuava a seguir a amiga enquanto pensava em quem construiria um poço em um lugar como aquele. “Com qual finalidade? Não parecia haver plantação nem criação de animais ou qualquer outra coisa do tipo. Só havia a trilha e mais nada. Bem, talvez justamente por isso. Quem caminha por aqui em dias como esses, precisa de um lugar para se hidratar e descansar”, concluiu.

- E como estão os preparativos para o casamento? – perguntou Raquel.

- Está praticamente tudo pronto. O irmão de Jonas está vindo do exterior. Faz quase dez anos que eles não se veem.

- E o vestido? Já escolheu? Me conta como ele é.

- Já, sim. Mas isso é surpresa.

- Ah, olha ela! Somos amigas desde a escola. E eu vou estar lá, não vou? Mas você sabe como sou curiosa.

- Sim, eu sei. Escolhi o vestido há três meses. Está reservado. Mas vai ser surpresa, para o Jonas e para todo mundo.

- Hum... não sei se aguento. O que ele tem de tão especial assim? É o noivo que não pode ver antes. Nada vai acontecer se uma simples convidada ficar sabendo.

- Mas você não é uma simples convidada, Raquel. Você é nossa amiga. Nós três nos conhecemos desde a escola. Você e o Jonas até namoraram e...

- Sim, mas faz muito tempo isso. E nosso “namoro” foi bem breve. O Jonas sempre gostou de você.

- Não é bem assim. Vocês ficaram juntos um bom tempo. Até para os pais ele te apresentou.

- Sim, mas não foi adiante. Olhe! – Finalizou Raquel de forma abrupta, apontando o dedo.

À frente do caminho pelo qual seguiam, a silhueta de um poço d’água ainda pequeno se desenhava. Mais alguns minutos de caminhada e elas o alcançariam.

Retomando o assunto, Raquel insistiu em saber como seria o vestido de Valéria. Ela queria saber dos detalhes, se haveria mangas ou se os braços estariam de fora. Se usaria véu e grinalda ou apenas uma tiara e quais flores carregaria.

Valéria não se sentia muito confortável conversando sobre esses detalhes. Ainda que tivesse sido há muito tempo, ainda assim, Raquel e Jonas foram namorados. Vindo do interior, ela chegou na escola depois que o relacionamento deles havia terminado. E a conheceu depois de Jonas, que contou sobre a história deles no passado.

Contudo, cansada, com sede e calor, já vendo cada vez mais perto o poço, Valéria cedeu e contou os detalhes de seu vestido, da prova dos doces que aconteceria dali algumas horas e as flores escolhidas. “Girassóis”. Jonas acha que combina com o horário do nosso casamento, ao fim da tarde.

Sem dizer nenhuma palavra, Raquel ouvia atentamente a descrição da amiga. Anotava mentalmente cada detalhe, cada informação e os porquês de cada escolha. Já a poucos minutos de alcançarem o poço, parou.

- Não tenho certeza se é aconselhável nós procurarmos água nesse lugar, Valéria.

- Como assim? Por que você diz isso? – questionou Valéria, surpresa, com os lábios secos.

- É que olhando daqui, não me parece que esse poço esteja em funcionamento ainda. Parece velho e em desuso. Ninguém deve usar há décadas.

- Estou morrendo de sede. Já que estamos aqui, não custa nada dar uma olhadinha.

- É. Não custa. Vamos lá! Mas se não tiver água, vamos voltar logo. Você ainda tem compromisso hoje.

Dito isso, Raquel se abaixou para amarrar o cadarço dos tênis que estava usando.

- Pode ir em frente, Valéria. Já te alcanço.

Valéria, cansada e sedenta, apressou o passo. Se não tivesse mesmo água, ainda teriam de voltar todo o caminho. Seriam quase duas horas até chegar em casa. “Vou chegar em cima da hora. E ainda preciso tomar banho”, pensou.

À borda do poço, Valéria soltou no chão a garrafa vazia e, com as duas mãos, levantou as madeiras que cobriam a entrada. Com a claridade que entrou, viu um pequeno balde pendurado pela alça de metal junto à parede interna do poço.

Valéria olhou para a direção em que Raquel estava e não a viu. “Que estranho! Ela estava logo atrás de mim”. Surpresa, olhou em seu entorno. Chamou por Raquel e não obteve resposta.

“Onde ela pode ter ido? Será que aconteceu alguma coisa? Eu não ouvi nada”.

- E então, conseguiu pegar água?

Raquel havia surgido logo atrás dela. Ao ouvir sua voz, os pelos dos braços e os cabelos da nuca se eriçaram.

- Raquel, onde você estava? Olhei para trás e de repente, você tinha sumido. Que susto!

Semblante sério, Raquel espiou para dentro do poço sobre o ombro de Valéria.

- Tem um balde ali.

- Sim, eu vi. Mas não sei como pegar.

- Vou tentar. Talvez eu consiga alcançar. E falando isso, inclinou-se sobre a borda do poço, levando uma das mãos para dentro.

- Cuidado, Raquel.

- É, realmente. Está bem difícil. E se nós tentássemos encontrar algo para pegar o balde? Vamos olhar em volta. Eu vou por aqui.

As duas deixaram o poço em direções opostas. Valéria nem mesmo notou que não havia uma corda junto ao balde. Poucos minutos se passaram até que gritou, acenando sorridente para a amiga.

- Achei algo.

Valéria voltou correndo para o poço com um galho seco e fino nas mãos, ponta em formato de “V”, comprido o bastante para alcançar o balde.

Raquel se aproximou calmamente da amiga, que já se debruçava sobre a borda do poço.

- Consegui. Peguei.

Tão logo terminou de pronunciar essas palavras, sentiu um dos pés perder o chão e soltou o galho, tentando se agarrar nas paredes internas do poço com as duas mãos. Não conseguiu. Mergulhou de cabeça em água lamacenta.

Com a queda, quebrou os dedos das mãos ao bater em pedras pontiagudas. Uma dor lancinante a envolveu e antes de gritar por ajuda, percebeu que se tratava de um poço inutilizado. Do fundo ao topo, deviam ser menos de dez metros. A pouca água que existia era barrenta e de mau odor. O balde, de um plástico velho e seco, estava quebrado a seus pés.

- Raquel. – Gritou. – Raquel – novamente, entre acessos de tosse e cusparadas lamacentas.

Respiração pesada, mãos sangrando e coração batendo descompassado, Valéria limpou como pôde o rosto e, com olhos entreabertos e piscando muito, olhou para cima. No alto, imóvel, cabelos tapando parte do rosto, sorriso meio sinistro encoberto por uma sombra, Raquel a observava em silêncio.

- Raquel, eu caí. Não sei o que aconteceu, eu...

- Quem disse que você caiu?

- Como?

- É. Você não caiu.

- Mas... Mas por quê? O que... O que eu fiz para...? Não estou entendendo. – Valéria não conseguia terminar as frases, envolvida em um misto de dor e náuseas que lhe provocava o mau cheiro.

- Ah, você não sabe?! Nem imagina? Coitadinha. Quão inocente você é. Você roubou Jonas de mim. Ele ia voltar.

Com os olhos em lágrimas e esquecendo da dor e da água suja e pútrida ao seu redor, Valéria gritou: - Me tire daqui. Eu não mereço isso. Você e o Jonas não tinham mais nada há muito tempo.

- Porque você chegou em nossas vidas. Não fosse isso, ele teria voltado comigo.

Valéria, agora em prantos, não acreditava. Ela e Raquel tinham sido amigas desde a escola. Jonas sempre disse que o que teria havido entre eles, ficara no passado, sem chance de retomar.

- Raquel... Raquel, você não pode fazer isso. Jonas e eu nos amamos. Vamos nos casar e...

- Cale a boca. Você e Jonas não vão ficar juntos. Nunca! – E ao dizer isso, desapareceu por alguns minutos.

Enquanto isso, a mente de Valéria buscava uma alternativa. Seu corpo tremia de dor. Ela tinha dificuldades para ficar de pé. “Tenho que sair daqui. Preciso sair daqui.” Tentou, em vão, subir pela parede, agarrando-se às pedras. Não tinha forças nas mãos e os pés molhados não lhe davam a aderência necessária.

Naquele momento, se deu conta de que Raquel havia armado aquela situação desde o princípio. “Ela ainda amava Jonas. Como nunca percebi nada?”, pensou. E ao lembrar-se do noivo, sentiu um nó na garganta e um aperto no peito. Um gosto de podre em sua língua encheu sua boca de saliva e quase a fez vomitar. “Jonas, eu não...”.

Um barulho de madeira logo acima trouxe Valéria de volta. Quando olhou, viu Raquel com um martelo na mão.

- O que você vai fazer? Raquel, me ajude. Eu imploro.

- Você vai ver. – E ao dizer isso, colocou sobre a abertura do poço, a primeira das tábuas. Começou a martelar.

Valéria se desesperou. - Raquel. Raquel. Por favor! Eu imploro. Não faça isso, por favor. – Raquel fingia não ouvir e colocava as tábuas, uma a uma, deixando Valéria quase em completa escuridão.

- Raquel, me tire daqui – suplicava. – Eu errei. Você amava Jonas. Atrapalhei o caminho de vocês. Não vou mais me casar com Jonas. Mas ele precisa ouvir de mim que você é o verdadeiro amor dele. Me tire daqui.

O barulho cessou. Uma das tábuas foi removida e Raquel olhava para o interior do poço. Valéria pensou que a convencera.

- Você não vai se casar com Jonas?! – afirmou meio que perguntando.

- Não. Nunca o amei.

- Então você desiste dele para mim?

- Sim. Você pode ficar com ele. Vou sair do caminho de vocês – assentiu Valéria.

- Ótimo!

Raquel recolocou a tábua e voltou a pregar. Valéria se deixou cair em meio à água suja, pôs as mãos retorcidas e esfoladas sobre a face. Soluçava e chorava baixinho. Pensava em Jonas e em sua família. Não viu quando o último raio de luz desapareceu. Estava, agora, em completa escuridão. Sozinha e machucada. Escutou alguns sons abafados sobre as tábuas acima de sua cabeça e então, silêncio total.

Reunindo todas as forças de que ainda dispunha, ficou de pé. Quase caiu, mas se apoiou em uma pedra afiada na parede. Cortou ainda mais sua mão. E gritou. Gritou por socorro. Gritou chamando Raquel. Gritou chamando por Jonas.

Já há alguns metros dali, Raquel seguia com uma mochila nas costas. Martelo, pregos e a garrafa deixada ao lado do poço. Tudo ali. “Ainda bem que não precisei usar o martelo de outra forma”, refletiu.

Quanto mais se afastava, mais abafados e quase inaudíveis ficavam os gritos. Eram agora apenas ruídos soprados por uma brisa leve de verão.

Ao retomar a trilha e deixar a visão do poço para trás, Raquel se deparou com o pôr do sol anunciando o fim de mais um dia. Mas para ela, o começo de uma nova vida. Era hora de providenciar girassóis.